SANTO ANTÔNIO DO BOQUEIRÃO É TRADIÇÃO QUE PASSA DE PAI PARA FILHO, E ASSIM POR DIANTE; VEM GENTE DE TODA BANDA.

Bisavós, avós, pais e, agora, filhos. E a ideia é manter firme a tradição de todos os anos visitar o distrito do Boqueirão por ocasião da romaria de Santo Antônio.

São centenas de famílias de romeiros que ano após ano acampam no distrito, junho após junho, sem faltar um ano sequer.

Na manhã da última quinta-feira (9/6), nossa reportagem conversou com três famílias de romeiros, de regiões diferentes, que fazem parte das inúmeras famílias que compõem o mosaico religioso-cultural que forma o distrito de Santo Antônio do Boqueirão na primeira quinzena de junho e mantêm viva a tradição que já dura mais de dois séculos e meio.

A família Lopes, de Formosa (GO), completou 70 anos de fé e festa no Boqueirão. É presença garantida nos meses de junho. Já está na quarta geração de romeiros, peregrinação que começou com o bisavô.

“Isso mesmo, agora estão chegando os bisnetos. E vamos seguindo, sempre trazendo os mais jovens, para continuar essa tradição de família”, conta Robson Lopes de Oliveira, da 4ª geração da família de romeiros de Santo Antônio, acampados sempre no mesmo lote há várias décadas.

Robson dá a receita para se manter acesa a chama viva da romaria. “As novas gerações não podem deixar essa romaria morrer, nem devem bagunçar demais. O ideal é manter essa alegria, essa paz, essa humildade”.

A tradição de participar dos festejos no Boqueirão já ultrapassou um século na família de Pedro Vieira de Souza, que também está na quarta geração de romeiros. “Começou com meu bisavô, passou para o meu avô e meus pais”, conta emocionado. “Meus avós e meus pais morreram”, completa com a voz embargada. “Mas a tradição continua, não vamos deixar cair”, sentencia o romeiro, que estava acompanhado de irmão, irmã, esposa e amigos.

Revelando grande devoção em Santo Antônio, Pedro disse que é costume da família todos os anos voltar ao distrito para encontrar amigos e agradecer as graças alcançadas. “Temos muita fé em Santo Antônio. Tudo que pedimos com fé, conseguimos. Aí, depois, temos de voltar para agradecer”.

A última graça alcançada, um pedido ao santo, em forma de promessa, para interceder em favor do irmão, com “problema sério” na coluna. “Fiz votos para ele. Hoje meu irmão está aí, descascando gabiroba”.

Dos 80 anos de vida da dona Pedrolina Leite Machado, mais de 50 são dedicados à tradição de todos os anos vir ao Boqueirão. Vem de Cabeceiras de Goiás. No início, chegava com o pai em carro de bois.

Mudaram os tempos, agora vem de automóvel. Mas a tradição, essa não muda. Não gosta de perder um junho. Para ela, juntamente com os festejos de caráter religioso e cultural da romaria, a união da família também é muito celebrada nesses dias de festa de Santo Antônio. “Boqueirão não é só romaria. É também a união da minha família, quase todos estão aqui”, comemora.

DOIS ANOS DE PANDEMIA FOI DE “MUITA TRISTEZA” PARA OS ROMEIROS TRADICIONAIS

“Dois anos (2020 e 2021) de muita perda para nós”, responde Robson Lopes, ao ser indagado sobre a sensação causada pela suspensão da festa durante a pandemia de covid-19.

Ele, no entanto, ressalta que o tempo sem a festa serviu para os romeiros fazerem uma reflexão e sentir o quanto é importante e significativa a romaria para cada romeiro, para cada família. “Temos de ter mais respeito e cuidado com o ambiente da festa. E também fomos tocados pela necessidade de estarmos mais unidos”, argumenta Lopes.

Para Pedro Vieira, foram dois anos igualmente de muita tristeza. Mas, mesmo sem a romaria, um ou outro membro da família não deixou de comparecer ao Boqueirão, em junho de 2020 e 2021, durante as restrições impostas pela pandemia. “Para limpar este local aqui, para cumprir a tradição. Mesmo sem ter festa, meu irmão acampou aqui, dormiu aqui”.

“Muito ruim e triste”, sentencia dona Pedrolina, ao ser perguntada sobre os dois anos longe da festa de Santo Antônio. “A festa traz alegria, traz paz”, resumiu a octogenária.

São apenas três exemplos de famílias tradicionais de romeiros que povoam o distrito e alimentam a festa há mais de dois séculos e meio.

Mas podem ser contadas às centenas, aos milhares. Formam uma pequena parte de um grande mosaico que nos próximos dias vai encher a Boqueirão de sons, de cores, de luzes, de saberem tradicionais e de sabores.